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CIGRE-Brasil cria grupo de trabalho sobre “curtailment”

Historicamente, há uns três anos, as restrições forçadas de geração, também denominadas “curtailment” ou “constrained-off” eram pequenas quando comparadas à potência instalada no sistema interligado brasileiro. Contudo, com o crescimento exponencial das gerações renováveis de eólicas e fotovoltaicas, aliado ao crescimento das micro e minigeração distribuída (MMGD), passou-se a ter, em alguns horários, excesso significativo de geração em relação à carga do Sistema Interligado Nacional (SIN). 

Desse modo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) passou a realizar, quando necessário, restrições de geração significativas em tempo real para manter a confiabilidade do sistema elétrico e o equilíbrio carga x geração. Essas restrições têm implicações econômicas substanciais para geradores e consumidores de energia. Esses eventos criam impactos para o proprietário do ativo e seus investidores na medida em que frustram parte das receitas ao longo da operação da usina ou geram um custo adicional no caso dos autoprodutores.

O CIGRE-Brasil criou um grupo de trabalho (GT) sobre “curtailment” para se debruçar mais detalhadamente neste tema, com a participação de 8 Comitês de Estudos, dentre os 16 que possui, mostrando como este problema é transversal a diversos comitês, com diferentes preocupações e visões sobre o assunto.

Comitê de Estudos Contribuições
CE-B4 Elos de Corrente Contínua e Eletrônica de Potência Resposta dos inversores CC/CA nas renováveis.
CE-B5 Proteção e Automação Comportamento da proteção em sistemas com muitos inversores.
CE-C1 Desenvolvimento de Sistemas Elétricos e Economia Planejamento com a inserção maciça das renováveis.
CE-C2 Operação e Controle de Sistemas de Potência Operação e restrições em sistemas com muitos inversores e fontes intermitentes.
CE-C4 Desempenho de Sistemas Elétricos Desempenho dos controles das renováveis
CE-C5 Mercados de Eletricidade e Regulação Mercados Regulação aplicados ao “curtailment”.
CE-C6 Sistemas Ativos de Distribuição e Recursos Distribuídos de Energia Impactos da geração distribuída no balanço de potência no SIN.
CE-D2 Sistemas de Informação, Cibersegurança e Telecomunicações Aplicação de sistemas rápidos para garantida da segurança da operação com fontes renováveis.

Atualmente, no SIN, as novas fontes renováveis já tomaram uma posição importante na nova matriz brasileira. Em abril de 2025, a capacidade instalada de geração de energia no Brasil está em 235 GW (fonte: ONS), com destaque para o crescimento das fontes solar centralizada/sistêmica e MMGD, com 7% e 14% respectivamente, e a eólica, com 13%, enquanto a hidráulica manteve a liderança com 45% de participação.

Somadas, solar e eólica, já alcançam 34% da capacidade da matriz. A previsão é de que, em dezembro de 2029, elas atingim 44,6%, superando a energia hidráulica. Cabe observar que, cerca de 25% do consumo do país em 2024, foi atendido por usinas renováveis, que bateram recordes de suprimento e produção de energia.

Ademais, o efeito do “curtailment” pode ser agravado por limitações na infraestrutura de transmissão, que não acompanham o crescimento da geração renovável em algumas regiões do país, especialmente no Nordeste, onde a produção renovável é muito intensa. A região Nordeste acumulou, até 2024, cerca de 40 GW de eólicas e solares despachadas centralizadamente, o que representa 16% de toda a matriz.

Regulatoriamente, o tema está tratado na REN ANEEL 1030, de 26.07.2022, que entre outras disposições, trata dos procedimentos e critérios para apuração e pagamento de restrição de operação por Constrained-off de usinas eolioelétricas, o que também se aplica às fotovoltaicas. 

Desde dezembro de 2024, a ANEEL também está promovendo a 3ª fase da Consulta Pública 45/2019, que propõe critérios operativos para a redução ou definição de limites de geração a usinas ou conjunto de usinas considerados na programação do ONS. A 3ª fase tem o objetivo de melhorar o detalhamento dos fluxos operacionais com análise das implicações do “curtailment”.

Em março de 2025, o Ministério de Minas e Energia criou o Grupo de Trabalho (aprovado na 302ª reunião extraordinária do CMSE), para buscar soluções para mitigar os impactos causados pelos cortes de geração de energia renovável / curtailment, com previsão de reuniões semanais sobre o tema.

O GT Curtailment começou os trabalhos, devendo produzir resultados em curto/médio prazo, com a publicação de artigos e outras publicações que forem pertinentes, sempre com o viés técnico, como é do perfil do CIGRE.

Sobre os autores:

Alexandre Mollica Medeiros e Katia Cristina Garcia integram o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (CEPEL) – Associados do CIGRE e atuantes no Comitê CE.C3 – Desempenho Ambiental e Sustentabilidade do Sistema de Potência

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